Prefeita Renata sanciona lei tornando Patrimônio Cultural Imaterial a Feira Livre, a Sorda de João de Deus e a Procissão da Padroeira

A prefeita Renata Christinne sancionou a lei 475/2019 tornando Patrimônio Cultural Imaterial a Feira livre de Belém, a Sorda de João de Deus e a Procissão de Nossa Senhora da Conceição, três manifestações ou elementos culturais fortemente enraizados na cultura belenense e que perduram por várias gerações.

De iniciativa da gestão da prefeita Renata, o projeto de lei foi aprovado pela Câmara Municipal de Belém e contou a contextualização histórica do professor Júnior Miranda, licenciado em História pela UEPB, e de José Teixeira, Oficial de Justiça e filho de João Teixeira, conhecido por “João de Deus”, o qual produzia a Sorda, biscoito artesanal feito de rapadura e outros ingredientes, e atualmente produzido por um dos seus aprendizes, o Bibil Sordas.

O reconhecimento da Procissão de Nossa Senhora da Conceição, da Sorda de João de Deus e da Feira livre de Belém, como Patrimônio Cultural Imaterial do município, contribui para a preservação dos saberes e das manifestações populares, fortalecendo e valorizando a cultura local.

Patrimônio Cultural Imaterial

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como Patrimônio Cultural Imaterial “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.”

HISTÓRICO DA FEIRA LIVRE DE BELÉM

Autor: Júnior Miranda

(Licenciado em História e Geografia pela Universidade Estadual da Paraíba).

A feira livre do município de Belém, realizada às segundas-feiras, teve origem na segunda metade do Século XIX, quando a localidade ainda era chamada de Gengibre. A feira se desenvolveu com a presença marcante dos tropeiros que se dirigiam às principais feiras livres da região para comercializarem produtos agrícolas e seus derivados com suas tropas de mulas ou cavalos.

De acordo com Sales de Assis (1973, p. 2), “como a afluência de viajantes era grande [por Gengibre], os seus habitantes organizaram uma feira, que logo se tornou umas das melhores, dada a sua ocorrência (2ª feira)”, pois não coincidia com os dias das feiras livres de lugares como Caiçara e Guarabira, efetivando a sua realização neste dia da semana em um trecho da antiga via de acesso ao povoado, posteriormente chamada de Rua do Comércio (atualmente Rua Flávio Ribeiro), que se estendia da Igreja Nossa Senhora da Conceição ao primeiro cemitério do povoado, localizado na atual Rua Travessa Santa Ana.

A referência oficial mais antiga sobre a feira de Belém é datada de 1868. Está descrita no jornal paraibano O Publicador, na correspondência remetida ao jornal pelo Sr. Emygdio da Rocha Athayde tratando do imbróglio em que se metera por causa de relacionamentos amorosos (texto com ortografia da época):

CORRESPONDENCIA.

Caiçara 13 outubro de 1868.

[…] Sou caixeiro do Sr. Francisco Manoel da Costa Queiroz e achava-me na povoação do Gengibre, vendendo fazendas do meu patrão; quando soube que estava o subdelegado do districto, o capitão Antonio Bezerra, autorisado pelo o delegado o capitão João Alves Pereira Lima para prender-me: o que me obrigou a deixar precipitadamente a feira onde me achava, para por em segurança as fazendas e dinheiro do meu patrão (O PUBLICADOR,  Ano VII, nº  1824, 16 de outubro de 1868, p. 3-4).

O depoimento do funcionário do comerciante de “fazendas”, ou seja, de tecidos, indica que a feira do povoado de Gengibre detinha considerável importância para a comercialização daquele artigo, haja vista o deslocamento com o produto de Caiçara, onde residia o comerciante, à feira de Gengibre (Belém), distante cerca de treze quilômetros, percorridos, provavelmente, ao lombo de jumento, o principal meio de transporte da época. A expressão “por em segurança as fazendas e dinheiro do meu patrão” supõe, ainda, o bom resultado alcançado com a venda do produto na feira.

A feira de Belém é um evento que mistura diversos elementos culturais típicos do Nordeste brasileiro, onde a população local e dos municípios vizinhos pode encontrar desde as bancas de brinquedos artesanais aos livretos da literatura de cordel, as panelas e imagens feitas de barro aos utensílios de alumínio, os rolos pretos de fumo aos produtos feitos de couro de animais.

Ainda é possível encontrar os artistas populares vendendo suas bebidas “milagrosas” produzidas com raízes da flora da região, bancas de bolos e bebidas caseiras, artesanato, frutas regionais entre outros produtos. Portanto, a feira livre de Belém é considerada um Patrimônio Cultural Imaterial do município por toda sua diversidade e tradição.

HISTÓRICO SOBRE AS SORDAS DE JOÃO DE DEUS.

Autor: José Tavares Teixeira

(Oficial de Justiça e filho de João de Deus)

JOÃO TEIXEIRA FILHO, “João de Deus”, (19/01/1934 a 22/08/2019), brasileiro, casado, natural de Belém-PB, filho de Joana Maria da Conceição e João Teixeira, nasceu na fazenda do Fragate, zona rural do Município de Araruna-PB. Perdeu muito cedo o seu pai, que era vaqueiro na fazenda  Fragate, zona rural de Araruna. Logo sua mãe, através de familiares, foi morar na rua Flávio Ribeiro, nº 31, Belém-PB, onde seus familiares residem até hoje.

Casou-se com a Sra. Maria Lúcia Tavares Teixeira, com quem teve cinco filhos: Antônio Tavares Teixeira, José Tavares Teixeira, Maria da Paz Tavares Teixeira, Ana Maria Tavares Teixeira, Maria de Fátima Tavares Teixeira.

Sua primeira e única profissão foi de Padeiro, trabalhou por longos anos na padaria do Sr. Amélio Carneiro, ( a maior e melhor padaria da Cidade de Belém); na padaria,  o seu João  se destacou como um bom profissional, além de fazer pães, bolachas, bolo,  biscoitos, aprendeu uma receita de “ Sorda”; que mais tarde começou fazer na sua casa; suas primeiras sordas, datam de 1972 a 1973, ele continuou trabalhando na padaria e fazendo a sua sorda em casa; após três a quatro anos, a sorda do seu João de Deus ficou muito conhecida na cidade, e ele resolveu deixar a padaria do Sr. Amélio Carneiro, e começou a trabalhar por conta própria, como autônomo, dono do seu negócio, isto em 1976.

A sorda do Sr. João de Deus, como era conhecida, era vendida na cidade de Belém, Distrito de Rua Nova, cidade de Caiçara e  na cidade da Serra da Raiz; seu João de Deus  tinha uma clientela tão grande que trabalhava de domingo a domingo, para dar conta da demanda. Seu produto ficou conhecido no Estado da Paraíba, no Estado do Rio Grande do Norte e no Estado de Pernambuco. Muitas pessoas quando viajavam para o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, faziam questão de levar a sorda do seu João de Deus. Quantas pessoas foram até a sua residência para pedir a receita da “Solda”, pessoas de diversas Cidades e Estados, e ele com carinho, sorridente passava todas as informações de como fazer a sorda; seu João era uma pessoa muito boa, generosa, não fazia conta de nada; muitas pessoas diziam que ele era uma pessoa muito boa, uma pessoa de Deus, foi com esse seu jeito, e foi assim, que ficou conhecido na cidade de Belém, como, “João de Deus”.

Quando alguém chegava em uma mercearia ou barraca para comprar sorda, dizia logo: só quero se for a sorda de João de Deus; era um produto tipo exportação; as pessoas que conheciam as sordas, mas não conhecia o seu João de Deus, diziam que a melhor sorda da região era a solda de Belém-PB; não conheci, ainda, alguém que faça sorda igual a João de Deus. Quando aos ingredientes para fazer a solda, temos os seguintes:

  • Farinha de Trigo (farinha comum);
  • Mel de rapadura (rapadura + água, ao fogo até derreter a rapadura);
  • Bicarbonato de Sódio (100 gramas para cada oito litros de mel);
  • Banha de porco (para untar as formas).

HISTÓRICO DA PROCISSÃO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO.

Autor: Júnior Miranda

(Licenciado em História e Geografia pela Universidade Estadual da Paraíba)

A tradicional procissão de Nossa Senhora da Conceição remonta ao final do Século XIX através de um antigo morador, de nome desconhecido, que trouxe ao povoado de Gengibre (Belém) uma imagem da santa católica que logo se tornou a Padroeira do lugar, sendo erguida uma pequena capela de taipa, localizada à época ao lado direito da atual Igreja Nossa Senhora da Conceição, com o frontispício direcionado para o leste.

No decorrer das décadas, a procissão tornou-se um dos principais eventos religiosos e culturais do município de Belém, realizado anualmente no dia 8 de dezembro, data da solenidade da Imaculada Conceição no calendário católico. Nesta data, centenas de fieis percorrem as principais ruas da cidade levando o andor com a imagem sacra original do século XIX.

Em relação à existência de uma capelinha de taipa e a construção da nova igreja, “Seu Manuca” discorreu sobre o processo de edificação do templo católico e seus respectivos idealizadores:

Meu pai é um dos antigos. Chamava-se Marcionílio de Oliveira. Conhecido por Gabé Mandú. Ele nasceu nos anos de 1870 pra 80, no sítio Picada, aqui em Belém. Meu pai trabalhou na Igreja da Conceição, gratuitamente. Havia uma capela em Belém, uma igrejinha pequena, encostada onde hoje é a casa de Zé Rodinha, naquele meio ali. De frente pro nascente. Papai dizia que era uma capelinha tão pequena que o povo pegava os caibros assim, com a mão, era baixinha. Já era de Nossa Senhora da Conceição, uma imagem bem pequenininha. Aí depois que juntaram todo mundo pra fazer uma nova capela, e aí fizeram a capela com a frente pro lado da rua, pro lado do brejo, como de fato ainda hoje é. Naquela época tinha um senhor que morava em Belém chamado “Targinim”, e outros e outros [que ajudaram na construção]. (Manoel de Oliveira, agricultor, 72 anos de idade).

A Sra. Maria Amarante, nascida em Belém no ano de 1919, revelou que antes da demolição da antiga capelinha de taipa dedicada a Nossa Senhora da Conceição, ela frequentou esse pequeno templo católico que tinha na frente “um cruzeiro muito bonito, grande como o Cruzeiro de Roma”. Depoimento de uma raríssima testemunha que vivenciou esse período histórico de transição entre o antigo e o novo templo católico, considerado o principal monumento arquitetônico de Belém:

Em Belém alcancei capela. Belém não tinha essa igreja assim não, era uma casa, uma capela até grande, mas não era como a matriz que está hoje. Ela tinha um cruzeiro muito bonito, grande como o Cruzeiro de Roma, na frente, onde é a pracinha aí. Era uma construção bem feita com uma madeirona bem alta, a cruz. Essa cruz foi arrancada quando desmancharam pra fazer a Igreja. Depois foi botado no cemitério (Maria Amarante, aposentada, 88 de idade).

A Procissão de Nossa Senhora da Conceição encerra o período de nove dias (novena) de cerimônias religiosas em honra à Padroeira de Belém. Por sua importância religiosa e cultural perpassada ao longo dos anos até os dias atuais, a procissão centenária é um patrimônio cultural imaterial do município de Belém.

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